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domingo, 16 de julho de 2017

Notas sobre Porto Alegre



   A cidade se verticaliza velozmente. As indústrias migraram para o entorno. Condomínios gradeados, ruas vazias, sombra de árvores e de espigões: em regra, a cidade é assim. Gente nas calçadas é coisa das ruas centrais, do Bonfim, da Cidade Baixa e dos subúrbios. Mas resta a zona sul, com seu casario espalhado, seu ar interiorano e vadio: Assunção, Tristeza, Conceição, Jardim Isabel, Ipanema, Guarujá, Belém Novo. Tem também a zona norte, ainda com casarios, mais populosa e árida, com menos atrativos.

   Da cidade açoriana, restam apenas traços. A cidade alemã deixou alguns prédios de relevo. De resto, também foi engolida pela renovação urbana. As obras da Copa de 2014, um dia, serão terminadas, e as bicicletas pedem passagem segura na tranqueira progressiva das vias.

   Nossos parques seguem lotados de crianças de apartamento, com autonomia de escassos vinte ou trinta metros. A juventude tenta retomar terrenos perdidos para o medo e para o escuro da noite com suas serenatas iluminadas. Artistas suam em bicas para catar migalhas do suor alheio. Famílias aproveitam o sol, junto a desportistas de fim de semana e vendedores de todo o tipo. Contemplativos, tradicionalistas, libertários, inocentes úteis, amigos do alheio, uma variedade de gente divide os espaços públicos: batuca-se, namora-se, brinca-se, reivindica-se, assalta-se, ocupa-se.

   O costume do chimarrão se preserva, seja pela manhã, seja pela tarde. O gauchismo, de alma ou de almanaque, se concentra no parque Harmonia em setembro. Entre eles, farroupilhas conservados no tempo como mantas de charque, revolucionários da mesmice.

   Jovens mulheres ativistas mostram que não vieram ao mundo a passeio. Mexeu com uma, mexeu com todas. É o seu lema. Enquanto As Batucas e o Bloco da Laje invadem espaços masculinos, saudosistas de recentes intercâmbios com o exterior importam homenagens a São Patrício, tanto para as ruas chiques do vale do silicone – Padre Chagas e arredores - como para as outrora transgressoras ruazinhas do Bonfim. O Berlim-Bonfim do Nei Lisboa, dos anos 80, migrou, aos pedaços, para a Cidade Baixa e para a região central. E os velhos traillers de cachorro-quente ou cheeseburger perderam espaço para as vans coreanas e para os food-trucks, como o halloween quase venceu os festejos de São João. Impávidos e estoicos, seguem ativos o bar Ocidente e a Lancheria do Parque.

   As classes emergentes motorizadas invadiram as praias de Ipanema e arredores, com suas cores e seus aparelhos de som. O Guaíba segue pouco recomendável para banhos, mas ótimo para esportes náuticos e para a fotografia.  A qualquer tempo, o pôr do sol será lindo e variado.

   O samba, o funk e o pagode se espalham pelos guetos, de sul a norte, de leste a oeste. Mas nem todos sabem disso, seguem sendo “coisa de negros”. O rock perdeu um pouco da força que teve e o Auditório Araújo Vianna, agora, tem dono. A exógena música sertaneja desafia os Fagundes, o Borghettinho e o Paixão Côrtes. Os cinemas de rua migraram para os shoppings e os teatros perderam viço e orçamento. Os órgãos de imprensa viraram panfletos. Perdemos o Scliar, o Érico e o Quintana, mas ainda temos o Luis Fernando, o Santiago, a Zorávia e o Jorge Furtado, o Unimúsica e a Orquestra Villa-lobos, o Teatro São Pedro e o Cine Guion. Brotou das sombras, com ânimo e vigor, a Cinemateca Capitólio. O novíssimo Iberê, em bela obra de Álvaro Siza, agora só abre aos finais de semana. Que fim levou a OSPA?

   No primeiro escalão do futebol nacional, ficou apenas o Grêmio. O estádio Beira-Rio avançou sobre o leito da avenida, como antes havia se apropriado das margens do Guaíba, e vielas estreitas e esburacadas ainda são o contorno da moderna Arena do Humaitá, fruto de um negócio para lá de estranho.

   Ainda se come bem no quarto distrito. Na Floresta, os bons restaurantes minguaram. Muitos insistem. Experimentam-se novidades gastronômicas nos bairros Moinhos de Vento e Auxiliadora. Também na Cidade Baixa, Bonfim e Rio Branco.

   Não sei bem de onde surgiram tantos veganos e vegetarianos, mas a cidade ainda cheira, ameaçadoramente, à carne assada nos domingos. E à descarga de automóveis durante a semana. Nos dias de vento sul, relembramos, às vezes, nosso nefasto passado borregardiano. 

   Nossos governos instituídos têm qualidade bastante duvidosa e a água de beber, também. Há muito ela deixou de ser inodora, insípida e incolor, como se definia nos livros escolares do passado. Nossa democracia concentrou-se nos sopapos e abandonou os ouvidos. Nas vilas populares, vingaram ameaçadores governos paralelos. Nos copos, aportaram as cervejas artesanais.

   As ruas mantêm-se, em maioria, arborizadas, ainda que a vegetação tenha as copas esquálidas esculpidas em V, à conveniência da rede elétrica. Ainda, assim, nos tingimos de amarelo e roxo na primavera e temos boa sombra no verão.

   Somos um povo bonito e diverso. Tatuagens, muitas delas de aspecto vulgar, se espalharam por todos os recantos corporais. A noite está cheia de pernas expostas, barbas estilizadas, músculos e decotes, mas nós seguimos, como povo, engordando inapelavelmente.

   A população cresce, mas diminuem os espaços públicos e pipocam os cercados privados, com porteiros, seguranças e comandas. O viaduto Otávio Rocha e as ruínas do Estádio Olímpico viraram albergue de mendigos. Uma nova geração de meninos de rua acaba de nascer. O celular é o melhor companheiro de muitos e a única coisa certa é que haverá um malabarista nativo ou castelhano, em toda e qualquer sinaleira, em busca da escassa solidariedade que resta.

   O porto já nem é mais porto, os barracões amarelos que tão bem retratavam a cidade estão perdendo sua alegria e cais é palavra morta, à espera de rimas novas.

   O melhor de tudo, por aqui, era termos as quatro estações bem definidas. Havia um cíclico renovar-se, em comunhão com a natureza. Esqueça. Estamos em julho, e a temperatura do dia beira os 30°C. Fez muito frio no outono. Morremos de medo do calor do verão. O que será da primavera?

   Já não  se sabe mais quando rebrotaremos.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Lembranças da ilha


   Cheguei à ilha, para morar, em 21 de abril de 2004, exatos quarenta e quatro anos após o início de sua povoação massiva. Era quase meio-dia e fazia um sol de rachar. O céu límpido e as nuvens de uma verticalidade espantosa devolveram-me a consciência de pequenez que um ego inflado pela perspectiva de ascensão profissional tentava apagar.

   Havia conhecido a cidade vinte e tantos anos antes e não guardava dela as melhores impressões. A visão ampla, desde a janela do avião, permitiu verificar que o núcleo urbano crescera bastante neste período. Embora ainda fosse perceptível o traçado de borboleta do projeto urbanístico original, as habitações haviam se espalhado em todas as direções, tanto para além do lago em forma de meia lua como para o lado oposto. Inúmeras aglomerações, condomínios e bairros novos, uns poucos com espigões de altura considerável, ocupavam a vista do observador privilegiado que eu era, a bordo de um avião, em velocidade reduzida para o pouso.

   Àquela época, a população da ilha já havia ultrapassado em quatro vezes o imaginado inicialmente. Menos da metade era natural dali. Para muitos, a ilha era só um lugar de passagem, e sempre haveria de sê-lo. Havia uns poucos estrangeiros e uma maioria de pessoas vindas de todos os cantos do país, especialmente das regiões nordeste e sudeste.

   Na ilha, em si, os pobres circulavam apenas durante o dia, ocupando os serviços menos cobiçados. À noite, a escassez de transporte público e uma polícia truculenta se encarregavam de mantê-los afastados, num proposital apartheid rodo-ferroviário e militar.

   De resto, os moradores, como regra, tinham ocupações bem remuneradas frente à média nacional, muitos em posições de destaque no serviço público ou nas grandes estatais do país, nas grandes empresas, escritórios de advocacia e representação ou de intermediação financeira, lobby e serviços em geral. A ilha era um pequeno centro de poder, pois, o grande - o de verdade -, há muito que morava nas grandes corporações.

   Já para além da barreira que isolava a ilha do resto do mundo, grassava uma pobreza aviltante, que se traduzia em ruas poeirentas, com vegetação escassa, casas amontoadas e sem reboco, elevados índices de criminalidade e violência, saúde precária e oportunidades reduzidas.

   Vindo do outono do sul, a primeira surpresa foi o vento morno que soprava na pista do aeroporto. Não sabia, então, que os dias se repetiriam assim, de frescos a quentes, por toda a extensão dos anos, com algumas raras noites frias que jamais exigiriam os blusões de lã, inevitáveis na bagagem de um sulista.

   De pronto, desconfiei da qualidade dos serviços públicos. Havia duas filas de táxis à espera dos recém-chegados como eu: uma, oficial, e outra, paralela, praticando tarifas bastante inferiores à primeira. Era visível a animosidade e as disputas. Optei pela mais barata e, ainda assim, paguei uma pequena fortuna para chegar ao meu destino, na ponta norte da asa da borboleta, viajando num veículo em mau estado de conservação.

   Minhas desconfianças iniciais ganharam força com o passar dos dias. Ônibus insuficientes e com frequência imprevisível, e uma única linha de metrô ainda em construção, abriam caminho para serviços alternativos, à margem da lei. Vans piratas e veículos particulares se digladiavam na caça a passageiros nas paradas dos coletivos, descumpriam, à conveniência de seus motoristas e de seu faturamento, as rotas anunciadas e ofereciam riscos diversos, de sequestros a acidentes. Três semanas de transporte público foram suficientes para mim. Acabei providenciando um automóvel para poder me deslocar pela ilha com segurança e agilidade, seguindo a aspiração da maioria absoluta dos ilhéus.

   Quando cheguei, já se prenunciava o período da seca anual que, em breve, faria amarelecer todos os gramados e a vegetação arbustiva. Apenas as árvores mais frondosas seguiriam em frente com seu verde pálido e seu contorcionismo hidricamente orientado, até que as chuvas de setembro as redimissem de seu calvário. Dentre uns parcos resquícios de grama ressequida, a vermelhidão do solo desnudo, que pintava as meias dos caminhantes como tinta inconveniente, brotaria por toda a ilha em extensas manchas poeirentas e hostis. Nos longos meses de seca, aprendi a beber água a um ritmo ditado pelo despertador.  

   Como a maior parte das paisagens construídas pelo homem - já que muito do ambiente natural havia perdido espaço para grandes núcleos habitacionais, ruas e avenidas -, o cenográfico ainda parecia predominar sobre o espontâneo. Até as plantas espalhadas por todo o lado tinham um quê de floricultura. Faltavam-lhes apenas os vasos para sustentá-las. Imaginei, então, que a costumeira rebeldia dos vegetais e a crônica falta de verbas públicas haveriam de subverter, no futuro, essa impressão tão marcante para mim.

   A mesma rebeldia que eu esperava viesse a subverter aquela paisagem cheia de falcatruas não se associava à maior parte dos seus moradores. O acesso a cargos públicos e a mamatas funcionais seria, para todo o sempre, o sonho de estabilidade da maioria dos ilhéus ou dos migrantes aventureiros. A arrogância, a pompa, o oportunismo e a desmedida competição, de um lado, eram as mais visíveis contribuições humanas ao conjunto da obra. De outro, a subserviência, o escapismo, o cinismo e a hipocrisia. Uma boa dose de talento alimentava os dois lados, é forçoso admitir. Não fosse assim, o castelo de cartas se desmancharia num toque.

   Ateu que sou, sem qualquer vergonha de sê-lo, lembro que reinava por lá uma religiosidade absurda e preconceituosa, mas também iconoclasta e empreendedora: quem não se encaixava nas seitas pré-existentes tratava de inventar logo outra para si.

   A amplitude dos espaços e o clima ameno, pouco sujeito a eventos imprevisíveis, favorecia a realização de festas ao ar livre, mas as pessoas sumiam nos finais de semana. Havia um monte de bares com cadeiras espalhadas pelas calçadas, nas áreas comerciais, e ótimos restaurantes, de gastronomia variada. Difícil, sempre, era guardar na memória a sua localização precisa numa cidade que, afora sua parcela inquietante de monumentos e palácios singulares, mostrava nos bairros uma arquitetura repetitiva e despersonalizada. Mais trabalhoso ainda era decifrar os seus endereços, tão amigáveis quanto senhas de caixa eletrônico: SQS414, SGAN902, CLS205, SHCGN710, SRTVS.

   Com o tempo, adotei um mantra interior para conseguir transitar incólume pelos variados ambientes da ilha, todos não muito diferentes entre si. Recitava para mim mesmo uma antiga canção de sucesso do final dos anos 70: “Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.” Funcionou pelos quatro anos que fiquei por lá.

   Guardo boas lembranças da natureza do entorno, com rios cristalinos e cachoeiras volumosas. De um velhinho chinês que ensinava, a quem se atrevesse, a fazer tai chi chuan no começo da manhã. De uma programação cultural tão variada quanto o era a matriz de seus habitantes. De um ar cosmopolita que lhe traziam as gentes de distintas procedências.

   Fiz alguns bons amigos, que gente boa sempre há em qualquer lugar. Mas sofri por solidões prolongadas e penosas, até encontrar, bem longe dali, um amor transformador.


   Quando me recordo da ilha e da vulgaridade de seus luxos, a imagem maior que me invade será sempre a mesma da minha chegada, em abril de 2004: imensas nuvens verticais, num céu profundo e azul, avisando aos homens que por lá transitam de sua pequenez transcendental.