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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A pin-up da Azenha



   Sentado no vaso do banheiro, nu em pelo, os pés descalços aproveitando o frescor da cerâmica do piso, Ariovaldo fumava o terceiro cigarro desde que havia se refugiado ali. Não conseguia dormir. Precisava apagar da memória aquela noite ruim. Distraía-se acendendo e apagando o isqueiro. A salvo das reprimendas pudicas de antes, que o haviam irritado muito, tinha todo o tempo do mundo para olhar o corpo desnudo de Januária, esparramado na cama rangedeira que mantinha nos fundos da oficina. Estava protegido pelo sono pesado da outra. O que tinha à vista era uma segunda versão de Januária, liberada de poses, cuidados e penteados, bem diferente da manequim de capa do calendário de 97.

   Ariovaldo não entendia grandes coisas de fotografia. Tudo o que sabia do assunto vinha da coleção de imagens femininas que decorava sua oficina mecânica, numa travessa do bairro Medianeira.  Na parede cega do galpão, mantinha um imenso painel de mulheres em poses provocantes, que exibia desde uma desbotada Brigitte Bardot e outras musas dos anos 60, até as atualíssimas Gisele Bundchen, Adriana Lima, Alessandra Ambrósio e Kate Moss. Pin-ups, como lhe ensinara um cliente metido a sebo. O termo em inglês se referia a um pôster com pessoas famosas e atraentes. Pendurados nas paredes, o modo de nomear os cartazes se transferiu para as moças. Gervásio, o chapeador, dizia que as tais pin-ups eram mulheres de plástico, sem alma. Mulher que não oferece nada, só quer receber. Boa, mesmo, era Doroteia, que lhe havia dado quatro filhotes e seguia dando tudo o que ele pedisse, sem apelar para poses idiotas.

   Mesmo entendendo pouco de luzes, sombras e enquadramentos, Ariovaldo avaliou que a Januária desfalecida em sua cama de solteirão, iluminada somente pela claridade indireta do banheiro, não daria uma boa foto. Não só pela decadência física da modelo, que, na imagem de 97, competia com vantagens sobre muitas atrizes famosas, mas também por que era insuficiente a luz que se derramava do banheiro para o quarto sobre as curvas da pin-up da Azenha, a musa do bairro, agora encharcada de rabos de galo e cerveja. Aquela luz de lanterna não permitiria ao observador apreciar as cunhas e desvãos de um corpo escultural, nem fazer brilhar penugens sobre as peles arrepiadas ou besuntadas de óleo, como gostavam os fotógrafos de revista.

   Quando entrou com Januária no puxadinho, o mecânico estava em êxtase. Jamais havia imaginado trazê-la até seu quarto na oficina, pois Januária era especial. Na verdade, se chamava Maria de Lourdes e era atendente numa loja de acessórios elétricos. Tinha lá seus vinte e poucos anos quando se intrometeu seminua nos sonhos de Ariovaldo, estampada numa folhinha. A loja de autopeças do bicheiro Cinco Mil inventou de armar seu próprio calendário, imitação do similar distribuído pela Pirelli, usando como manequins as funcionárias jeitosas do comércio do bairro, mais algumas putas. Abdicando de usar profissionais por economia, prometeram céus e terras para despirem de seus guarda-pós e macacões de brim as caixeirinhas aspirantes a um futuro menos ordinário.  

   Com ar de Marilyn Monroe, nádegas proeminentes e lábios carnudos, De Lourdes – como a chamavam - ganhou a foto de capa, encimando a sequência numérica do mês de janeiro. Assim, pegou o apelido de Januária nas lojas e botecos da Azenha. A modelo que ilustrou o mês de fevereiro trabalhava num cabaré do Cinco Mil na rua Florianópolis. Lucimar, da loja de tapetes, virou Julinha, posando como devassa sobre uma mesa de sinuca na página de julho. A frentista Zenaide, flagrada só de botas cavalgando a mangueira da bomba do posto de combustíveis, transformou-se em Setembrina. Da Natália, musa de dezembro, ninguém lembra o nome original. Acabou casando com um gerente de loja do bairro, e sumiu. Márcia, das Casas Tigre, pelejou bastante para ilustrar o calendário de março, enrolada numa jibóia branca. Márcia, março, como lhe convinha. Dizem que lutou com suas armas mais úmidas e profundas. Algumas das meninas, por influência dos filmes americanos que passavam no Shopping João Pessoa, adotaram codinomes em inglês: April e May. Das outras, já não lembro: talvez houvesse uma Júnia e também uma Augustina. Para sempre na memória de todos, ficou apenas a gostosona da capa, pois as demais não resistiram ao assédio sistemático, arrumaram empregos mais longe ou tomaram outros rumos.
Só a De Lourdes ficou pelo bairro. Transformou-se na pin-up da Azenha, a Januária de nós todos. Mecânicos, borracheiros e pintores babavam por ela. Eletricistas, carregadores, frentistas e estofadores a provocavam com gracejos. Atendentes, chapeadores e manobristas a convidavam para sair. Sozinhos ou acompanhados, aprendizes se iniciavam na vida sexual, pensando nela. Quem mais transitasse por ali dava preferência à lojinha do Alaor, só para vê-la. Ou tudo isso misturado.

   Apesar das várias promessas que recebeu para posar nua, sua carreira de modelo não decolou. Ficou restrita ao calendário de 97. Transformada em alvo das cantadas de todo o   masculino da Azenha, ela se manteve firme por ali. Não fugiu como as outras. Escolheu para casar um funcionário chinfrim do Detran.  Por isso, era especial, lembrava Ariovaldo, acendendo e apagando o seu isqueiro roxo. Ao contrário das outras musas que vizinhavam com ela coladas nas paredes da zona, ela estava logo ali, ao alcance dos olhos, atendendo na auto-elétrica do seu Alaor.

   Vestia roupas grudadinhas ao corpo, decotes largos como a avenida e fazia carinhas insinuantes. Se via que gostava de acariciar os braços peludos dos clientes, atirava para lá e para cá os cabelos sempre bem cuidados, mas, de verdade, de verdade, não dava corda para ninguém. Era casada. E pronto. Januária era queixo duro, como se dizia por lá. Poderosa. Na hora do vamos ver, soltava os cachorros nos mais abusados, pedia respeito, resistia com gana e tapas aos avanços da moçada.

   Ela simpatizava com o Ariovaldo. Desde mocinha. Desde antes do calendário.

   Meio tímido, ele não era tão grosseiro e ostensivo como os outros. Seus chistes e cantadas, a que ele também não renunciava, pareciam quase uma obrigação de macho. As brincadeiras tinham se estendido, como um hábito, pelos últimos vinte anos. Já nem sabiam relacionar- de outra maneira. Para ele, a Januária, tão ciosa de seu recato e de sua paz conjugal, fazia pequenas concessões. Ele elogiava, ela sorria. Ele insistia nos agrados, ela lambia um dedo e tocava sua bochecha. Ele tornava a flertar, ela oferecia um café ou piscava um olho. Ele convidava para sair ou tocava num braço nu, ela se escapava.

   - Deixa disso, Ariovaldo, sou casada.

   Após tantos anos de joguinhos, que tornavam meio falsa a insistência de Ariovaldo e alegóricas as esquivas da pin-up, ela aceitou o convite para tomar umas cervejas com ele no bar do Bigode. Sexta-feira, depois do expediente. Ele esqueceu sobre o balcão os fusíveis que tinha comprado e quase atravessou a vitrine ao sair da loja do seu Alaor. O velho perguntou se ele estava borracho.
  
   Somente no boteco, trago vai, trago vem, ficou sabendo dos chifres e do divórcio. O moço do Detran tinha pisado na bola e a pin-up estava sozinha há um ano. Depois de mais algumas cervejas, ela admitiu estar cansada da solidão e arrependida por ter se resguardado tanto dos assédios, agora bem mais escassos.

   - Boba que eu fui - ela lamentou, com a voz engrolando.

   Virou-se de frente para ele, como num confessionário, e mostrou-lhe o dente faltando, brinde do marido na batalha final.

   - Isso dá pra chapear - disse o mecânico.

   Ela desdenhou do comentário dele. Exaltada, empinou os peitos, imitando a pose da foto. Um seio estimulado pelo álcool aproveitou a displicência de um botão e quase pulou da blusa para provocar o Ariovaldo.

   - Poucos se lembram agora da pin-up da Azenha - reclamou.

   Ele correu-lhe os dedos pela nuca, em consolo, e aproveitou o abandono da outra ao seu carinho para dar-lhe um beijo de leve na bochecha que resguardava o molar faltante. Sentiu um estremecimento ao tocar com seus lábios o cantinho daquela boca tão desejada.
Ela se esquivou, voltando a ser a Januária de sempre:

   - Não abusa, Ariovaldo.

   E pediu ao Bigode outro rabo de galo e mais um pastel.

   Ao contrário dos demais, Ariovaldo nunca a tinha abandonado. Material elétrico, fosse barato ou caro, só comprava na loja do seu Alaor. A foto de Januária, com seu baby-doll provocante, esteve pendurada por anos na parede mais nobre de seu escritório.  Mais adiante, ele a removeu dali e a levou para decorar o quartinho que mantinha atrás da oficina, querendo alegrar as suas noites de tédio e dar mais privacidade para as suas homenagens. O certo é que ela estivera na mira dos seus olhos, num lugar ou noutro, desde dezembro de 96, quando ganhou de presente o calendário com as moças do bairro. A pin-up da Azenha era um fetiche seu. No imaginário do mecânico, tornava mais humanas e reais todas as outras modelos, que ele jamais pudera ver atendendo no balcão ou servindo um cafezinho. Afinal, elas posavam sempre sobre lençóis que jamais tocaria, ou aninhadas entre feras e elefantes na África, nas areias brancas do Caribe, em clubes de golfe ou mansões de cinema, em carrões espalhafatosos ou motocicletas que nem havia no Brasil. Nunca em Cidreira ou Tramandaí, no zoológico de Sapucaia ou deitadas junto ao espelho d’água da Redenção.

   Pelas revistas de fofocas e pela tevê, ficava sabendo da vida e dos percalços das atrizes e manequins do seu painel da mecânica. Para saber de Januária, bastava dar uma passadinha na auto-elétrica do Alaor.
  
   - Vai ser hoje o nosso chopinho, Januária?
   
   - Tou sem tempo – ela piscava.
   
   - Quer conhecer o meu chatô, coisa linda?
   
   - Mal posso esperar, deve ser uma maravilha.

   Ela ria ou simulava espanto. Gostava das brincadeiras dele. E dos seus braços peludos.
Às vezes, ele era mais incisivo:

   - Larga esse polícia, que eu caso contigo, Januária.

   Ela cortava o assunto, ameaçadora:
   
   - Se ele te ouve...

   Ariovaldo empurrou a porta do banheiro com o pé e o quarto se iluminou um pouco mais. Emergiu brilhante da escuridão, sobre a prateleira com os tocos de vela para as faltas de luz, a foto de Januária na parede, a pin-up da Azenha, cuja visão tanto a tinha alterado ao entrar no quartinho da oficina.

   - Parece um altar de macumba - ela havia dito, antes de enlouquecer.

   À beira de outra cama bem mais confortável do que aquela, Januária posava de lado. Vestia um baby-doll transparente e sapatos vermelhos. A coxa sólida e a nádega lisinha ocupavam o primeiro plano. Os lábios em elipse e os olhos de gato do mato, ocultos pela franja à Farrah Fawcett, ameaçavam devorar a câmera. Para além dos antebraços que os comprimiam, os seios de mamilos globosos como feijões mulatinhos saltavam à dianteira feito um estandarte libertino. Sobre a pele perfeita, sem marcas nem sinais, os pelos loiros pareciam fios de areia iluminados pelo sol da manhã. Na mesa de cabeceira, um copo de campari e cigarros. Numa gaveta aberta, cremes de beleza e maços de cem dólares. O fotógrafo tinha feito um bom trabalho.

   - Me custou bastante aquilo - ela confessou no bar, quando já havia tomado o terceiro rab0 de galo. - De quem tu acha que era aquela camona?

   Ariovaldo baixou a cabeça. Não queria confirmar desconfianças. Mas a pin-up revivida e embriagada já não prestava atenção nele.

   - E pra ficar na capa, então? O que fizeram comigo eu não deixei ninguém fazer nunca mais. Nunquinha.

   O cigarro queimou-lhe os dedos e ele tratou de jogá-lo no vaso. Protegeu da brasa o membro murcho, que ela, no auge de porre, depois de embrabecer, havia comparado ao caroço enrugado de um pêssego. Às gargalhadas. Era de má bebida, a Januária. Mais ela desdenhava, mais ele murchava.

   O quarto ainda rescendia a vômito e álcool, igual ao mau hálito que o tinha expulsado da cama estreita. No berço pobre de Ariovaldo, a pinguça bufava. O desenrolar do encontro havia sido um desastre.

   O contorno escuro das pálpebras de Januária estava meio borrado e o batom vermelho avançara para além da linha dos lábios. Frisos negros desenhavam o trajeto das lágrimas sobre o rosto. Os cabelos longos se haviam emaranhado com o furdunço da noite e a perna dobrada deixava à mostra a perereca gorducha, sob o inacreditável bigodinho de Hitler a que ela havia reduzido os seus pelos pubianos. Ariovaldo notou, sob o arco inferior dos seios - pendentes para as laterais do corpo como pochetes vazias -, uma cicatriz longa e sinuosa, razão, talvez, para que ela não o tivesse deixado apalpá-los, beijá-los, nem nada.

   Januária virou-se de lado e pôs em foco o traseiro opulento, que havia alimentado fantasias desde a Cidade Baixa até a Glória. Tinha ganhado volume e perdido em firmeza. Ariovaldo alçou a vista para os dólares na fotografia de 97 e lembrou que Cinco Mil era um grande filho da puta. Desviou o olhar outra vez para o corpo despido no quarto. A perna da visitante livrou-se do lençol e a mesma coxa robusta ficou diante de seus olhos, com vinte anos mais, sem retoques a ocultarem estrias e depressões, marcas da vida e culotes.

   Ariovaldo deu mais uma tragada no seu cigarro. Havia entendido o porquê da insistência com a luz apagada. Comemorou que o movimento de virada tinha levado para o escuro o bigodinho detestável, que ela devia ter adotado para agradar ao ex-marido alemão.

   Levantou-se do vaso com vagar. Não queria correr o risco de acordá-la. Aproximou-se da cama, cuidando para não pisar nos cacos do abajur que ela havia atirado ao chão.

   - Essa daí não sou eu, seu bosta! – ela tinha gritado.

   Com a tranquilidade que não tivera antes, avaliou de perto o corpo desnudo da pin-up. Tomou uma ponta do lençol e tirou-lhe do queixo um resquício de salsa e guisadinho do pastel do Bigode, que ela havia devolvido em jatos para o meio da peça, após quebrar a luzinha de cabeceira. Confirmou que Januária estava longe de ser um zero quilômetro. Era um carro rodado, cheio de manhas, lataria arranhada e estofamento gasto. Seminova, para usar o eufemismo dos picaretas de automóveis. O tempo é um criminoso implacável que ninguém consegue prender. Januária estava mais para um Opala ou um Dodge Dart beberrão do que para a Lamborghini conversível de antes.

   Ariovaldo esticou um braço sobre a cama e retirou do prego na parede o calendário de 97. Ele não lhe dizia mais nada. O pacto de fantasia que ele propunha estava rompido. Levou-o até a pia do banheiro, acendeu o isqueiro e deixou a chama lamber o pé da pin-up da Azenha, depois a coxa, o baby-doll, os maços de dólares. Viu a labareda crescer e a imagem de Januária se contorcer sobre a pia. Os seios volumosos perderam substância, virando cinzas e picumã, e os lábios em bico pareciam soprar a chama que os engoliria. Sentiu cheiro de galinha sapecada quando o fogo devorou-lhe os cabelos.

   No espelho manchado sobre a pia, evitou fixar os olhos sobre a face cansada que ele devolvia. Recolheu os restos do calendário espalhados sobre a louça rosa, jogou-os no vaso e puxou a cordinha da descarga. Sem remorsos, despedia-se para sempre da pin-up da Azenha. Eu avisei, diria o Gervásio, se assistisse ao sepultamento.

   A loira oxigenada se remexeu na cama, livrando-se do lençol barato. Ainda dormindo, murmurou um vai te foder bem nítido e orientou para ele, outra vez, o bigodinho  delator, tão mais negro que a cabeleira à Farrah Fawcett. Ainda brigava com seus demônios.

   Ariovaldo lavou o rosto e as mãos. O sábado, para ele, era dia de trabalho, e este prometia ser longo, após a noite mal dormida. No esforço de pentear-se com seu pente banguela, achou que estava ficando mais grisalho. Ele também já parecia mais com uma lanhada Kombi de carretos do que com um carro de passeio. Entendeu que precisava livrar-se daquela velharia de pente e do espelho borrado. Renovar o possível, pois os cabelos brancos ele jamais pintaria. Não estava para falsificações. Pegou seu traje de mecânico, pendurado no gancho atrás da porta, e vestiu. Sem cuecas, como preferia. Na gaveta da mesinha de cabeceira, encontrou papel; no bolso do macacão, uma caneta bic. Deixou o bilhete sobre a tampa do vaso, pois ali era certo que ela encontraria.

   “Delurdes,
   Fui comprar um pistão na Azenha. Na volta, trago pão e neosaldina.
   Ariovaldo”

   Não sabia bem como escrever o nome verdadeiro dela. Mas chamá-la de Januária era coisa do passado. Para amansar a fera, desenhou, ao lado dele, um coraçãozinho. Talvez, ao acordar, ela nem se lembrasse de nada.


   Depois, acendeu um cigarro e saiu, evitando ruídos. Pensou que aquele modelito nazistoide de pentelhos, ao seu tempo, teria que ser negociado. Como aquele furor pela cachaça.  

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A vizinha ilustre


  
   Minha amiga, a quem chamarei Dora, tem uma vizinha ilustre.

   Quando soube com quem partilhava o condomínio, Dora ficou admirada que uma figura tão importante da república morasse justo no andar de cima, num prédio tão simples como era o seu.

   Para Dora, seu apartamento havia sido a conquista suada de uma vida inteira de trabalho e esforço: uma morada de porte médio, ensolarada, com quartos para si e para os seus dois filhos, espaço para os gatos e para seu ateliê, com boa privacidade, garagem para o carro e jardins floridos. Não é fácil a luta do artista plástico.

   Mas ela nunca imaginaria que aspiração idêntica a sua – um simples apartamento de classe média - estaria nos planos de alguém acostumada a frequentar palácios e hotéis de luxo, participar de banquetes e homenagens faustosas, de recepções dignas de reis e reuniões do G20. Que tal coincidência de destinos ela viesse a partilhar com uma liderança capaz de mobilizar a humanidade inteira, discursando na ONU, demandada para palestras no mundo todo, e que é sempre aclamada pelo povo simples de seu país pelos lugares onde transita.

   Há também quem se refira a ela com qualificativos menos nobres. É resultado da cruzada midiática desqualificada (e, no caso dela, também misógina) que nos acostumamos a assistir nos jornais diários e nas redes sociais, dirigida contra os que ousaram destinar parte do orçamento público para segmentos menos favorecidos da população.

   Pois lá está ela agora, esse monumento de dignidade, morando um andar acima do seu, num apartamento comum do bairro Tristeza. Não se pense que é dada a festas e recepções a vizinha ilustre. Ou que costuma receber a visita de figurões, líderes empresariais e outros próceres da república. Não. Leva uma vida discreta, quase anônima.

   Por vezes, Dora a vê sair, em trajes esportivos, se equilibrando numa bicicleta para prolongados exercícios nas ciclovias da zona sul. Outras vezes, flagra a vizinha ilustre a brincar com os netos no jardim, ou cruza com ela pela entrada do edifício, ocasiões em que a vizinha se mostra sempre amável e preocupada em afastar a incômoda camada de pompa que reveste nossos olhos plebeus quando nos vemos diante de ícones como ela. Prefere manter à distância os seguranças que sua condição lhe impõe, gosta de segurar o elevador e fazer embarcar nele o morador envergonhado ou arredio que se dirige para as escadarias ao vê-la, de trocar cumprimentos afáveis com as pessoas do seu entorno.

   Para Dora, no entanto, sempre lhe faltam palavras quando a encontra. Na hora agá, nunca consegue expressar tudo o que gostaria de dizer. Que tem um imenso respeito por ela, contar-lhe de sua solidariedade pela violência com que a retiraram do cargo para o qual foi eleita, de como a vê como um exemplo de dignidade, de como admira sua força e sua coragem. Que se espanta com a firmeza com que a vizinha ilustre defende as suas ideias, a mesma atitude firme que conseguiu sustentar ao longo de tantos anos, apesar de obrigada a partilhar espaços com a nata da escória nacional.

   Quando a oportunidade se abre, sempre falta à Dora dizer a coisa certa, come as sílabas, gagueja vergonhosamente diante desta mulher de fibra.
Mas Dora é, também ela, uma mulher especial, que sabe ser calorosa e gentil. Não se deixa abater por singelas trapalhadas de elevador.

   Para fazer-lhe um merecido afago, tratou de reunir uma coleção de seus melhores trabalhos como ilustradora de livros infantis para dar de presente aos netos da moradora do apartamentinho da Tristeza, vizinho ao seu. Embalou-os com a consideração que lhe haviam despertado as inúmeras ações de governo adotadas pela vizinha ilustre. Abusou do talento artístico que a tornou bastante conhecida no meio editorial da cidade para tornar a embalagem do pacote uma atração à parte. Redigiu um bilhete carinhoso, expressando por ela sua admiração, e desejando que ela não esmorecesse na luta por dias melhores, para si e para seus netos, a quem endereçou os livrinhos. Oportunizou que ela os presenteasse, em sentido inverso, no dia das avós, atraindo para si, em maior dose, o carinho dos parentes.

   Quem recebeu o embrulho foi a secretária da vizinha ilustre, pois ela havia saído. (Era um daqueles dias em que ela se dedicava a exercitar-se com a bicicleta).

   No dia seguinte, Dora recebeu uma carta de agradecimento. A vizinha ilustre elogiava o trabalho da artista e a delicadeza de seu gesto, nesse tempo de grosserias e de gentileza escassa. Em letra de traços firmes e seguros, mostrava mais uma vez grandeza de caráter e atenção ao outro.

   O bom disso tudo foi saber que a vizinha ilustre, apesar das injúrias e trapaças de que foi vítima, ainda expressa - em texto de próprio punho - a crença num futuro melhor para todos nós.

   É o que me move a escrever sobre isso. Há dias que essa história não me sai da cabeça. A vizinha está viva e forte. Não a destruíram. Segue se alimentando de seus afetos mais caros, de música e de livros, e da vida pacata de uma cidadã comum. E do carinho de seus admiradores, como a minha amiga Dora e muitos outros de nós.

   A propósito, Dora anda louca para topar com ela no elevador outra vez. Gostaria muito de abraçá-la, dar beijos estalados nas suas bochechas, consolá-la pela perda do ex-companheiro, mas entende suas reservas e sua discrição.

   Talvez um dia, quando forem mais sozinhas, se anime a convidá-la para tomar um chá.