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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Cinco a menos


   Para aquele Agenor encarapitado no muro, encorajando-se a abandonar como clandestino  a cidadela, só restava agora descobrir caminhos novos na extensa trama de vielas dos bairros populares, estendidos diante de si a perder de vista. Dentro dos muros, a opção oferecida para ele era o abate. Atingira os oitenta anos, havia perdido o direito à manutenção governamental e o povo da quina Paz e Harmonia, a quem cabia decidir por sua sobrevivência na comunidade, tinha preferido abdicar de sua companhia, numa eleição limpa e serena: 345 votos a 72. Assim determinavam as regras criadas pelo tribunal das corporações que governava tudo, com seus monstruosos preceitos de produtividade, assepsia social e autopreservação. Havia sido a corte a idealizadora do sistema de coabitações que organizava em grupos de quinhentos os velhotes improdutivos para viverem ali o fim de seus dias.

   Agenor nunca fora muito popular, e agora pagava o preço de sua antipatia. Ficara feliz com os setenta votos que havia angariado, além dos dele e de Lucinda. Era mais do que merecia daquela comunidade, com quem se batera tanto, de seres anestesiados ante o poder absoluto das corporações.

   Sabedora por antecipação da sentença que aguardava o outro, Lucinda o havia ajudado a fugir, como já fizera com muitos condenados. Sempre ela, a boa Lucinda, que não queria saber de abates nos recintos da sua quina. Era uma das poucas amigas que ele mantinha após os dez anos regulamentares no co-housing Paz e Harmonia. Ela mesma tratara de surrupiar para ele a arma do porteiro. Ainda que ali fosse a representante máxima do sistema, a poderosa ordenadora achava os abates de idosos uma excrescência. Todos na comunidade suspeitavam que ela colaborasse para amainar o destino dos excluídos, mas ninguém a condenava por isso. Sua atitude era, afinal, tranquilizadora.

   No momento da fuga, Agenor levava consigo apenas uma esteira grossa de plástico-bolha, uma muda de roupas, a pistola roubada, uma garrafa d’água, um canivete multiusos, que acompanhara toda sua trajetória adulta na área vip, e ração em barras para três dias. Tudo bem acomodado na mochilinha preta que Lucinda havia providenciado para ele. Nas zonas protegidas de Eufrésia, havia de tudo. As corporações não deixavam faltar nada. Fora das muralhas, era o oposto. O pouco era disputado a tapas. Mas ele não podia carregar mais do que levava.

   Embora se aproximasse o calor tórrido do verão, Agenor havia preferido vestir seu velho uniforme cinzento de trabalho na petroleira, apropriado para todas as intempéries.

   Despediu-se de Lucinda do alto do muro com um prolongado aceno, as emoções ocultas pela escuridão da noite. Ainda de braço erguido e punho cerrado, ela gritou-lhe boa sorte. Ele desejou, em seu íntimo, que os parceiros da quina decidissem bancar o sustento dela no futuro, quando se extinguisse sua aposentadoria.
  
   O povo unido jamais será vencido. Por ironia, foi essa a frase que lhe veio à cabeça, antes de pular, sozinho, para o outro lado de sua existência: um bordão batido, entoado aos gritos no tempo dos partidos e das manifestações, quando, em geral, o povo estava sendo derrotado em alguma batalha por direitos.

   Escorregou muralha abaixo e jogou-se sobre uma tolda que algum cigano extraviado havia estendido como barraca sobre o valão.

   - Filho da puta – o homem gritou, avançando sobre Agenor.

   E foi só o que ele disse. Emborcado sob a proteção de lona, não teve forças para erguer-se após o balaço certeiro que lhe endereçou Agenor.

   O velho fujão lamentou ter precisado gastar uma de suas balas, cujo sibilo ainda zumbia no ar como uma abelha biônica, por um motivo tão besta. Sabia que muitos confrontos o aguardavam.

   - Não hesite em atirar - havia recomendado Lucinda. - O importante é chegar são e salvo à colônia dos refugiados.

   Cogitou trocar seus pertences com os do cigano morto, como lhe havia sugerido o paranoico Vandinho, para quem tudo o que havia na quina estava equipado com rastreadores. Mas não quis trocar seu capote impermeável e seu bom par de botinas por um poncho surrado e as alpargatas carcomidas do outro. Fosse verdade o que dizia Vandinho, Lucinda o teria avisado. A menos que Lucinda...

   Afastou-se do muro coxeando um pouco, pois a proeza que havia acabado de fazer não estava recomendada para octogenários na cartilha de procedimentos do Paz e Harmonia. De agora em diante, restava-lhe buscar abrigo nas profundezas do lado de fora, espaços onde só tinha se animado a andar sob a proteção das equipes de transporte que o levavam ao trabalho nas plataformas de extração de petróleo. Dessa vez, não poderia voltar. Do lado de dentro, muitos jamais haviam saído. Os de fora penetravam na cidadela sob suspeita e olhares vigilantes.

   Agenor sabia estar no território dos Feras, pois eram eles que forneciam canabinoides para os escleróticos das quinas vizinhas àquela porção do muro. Em cada agrupamento de quinhentos velhos, de cem a duzentos faziam uso do medicamento proibido. Precisaria mover-se com cuidado, mas ganhar a maior distância possível da muralha até o amanhecer, quando passaria a compor a lista dos renegados. Teria, então, sua foto de perfil inserida nos arquivos de busca da Securitatis, ainda com a longa barba branca que Lucinda ajudara a raspar antes da fuga.

   Haviam-lhe dito que os agentes de busca preferiam trabalhar nos primeiros anéis da periferia, onde moravam os trabalhadores temporários – ainda úteis para as corporações – a penetrar nos meandros profundos do mundo dos perdidos. Drogados, mercenários e traficantes de qualquer coisa, velhos fugidos do abate, como ele, doentes, expurgados, mal paridos, inválidos e mutilados, loucos, gente para quem outra vida não valia nada, esse seria o seu universo redentor de agora, o universo dos perdidos. Uma gente que exterminava a si mesma, sem desperdiçar o orçamento da segurança, nem agigantar as estatísticas das mortes pela Securitatis, sempre constrangedoras para o discurso asséptico dos governantes.

   Um misto de receio e excitação invadia Agenor, que apertava o passo para longe da cidadela dos nobres, aquele mundo organizado, imutável e cheiroso - para poucos - que acabava de abandonar. Teria Lucinda guardado amostras de seus pelos para o rastreamento de DNA pela força de resgate? Ou queria de fato ajudá-lo quando propôs raspar sua barba?

   Uma profusão de odores antigos chegava-lhe às narinas: esgoto, cerveja choca e mijo, lixo amontoado, tabaco, esfregão molhado, tortillas na chapa, madeira seca, cozido de repolho, lenha de maricá, gordura no carvão. Apesar da tempestade olfativa, não teve saudade dos adocicados aromatizadores de ambientes com que convivia há tantos anos.

   Ao deslocar-se, evitava as aglomerações, os bares e os guardiões dos becos, mas não se atrevia a transitar pelos lugares muito ermos. Suava sob o jaquetão. Havia caminhado um bocado pela noite escura e quente dos arrabaldes. Sentia-se oprimido pela máscara antipoluição e pelas correias da mochila.

   No passado, pela década de vinte, haveria o ladrar de cães para acompanhá-lo. Agora, não. Vez que outra, o voejar de um morcego ou uma ratazana assustada, fontes de proteínas ainda não absorvidas pela voraz indústria alimentar. Enquanto roía uma barra de ração para reavivar as forças, avaliou ser impossível determinar o tipo de carne processada que estaria embutida ali. Peru, macaco, cachorro, lagarto, marreco, sabiá? Há tempos não ouvia o canto insistente de um sabiá laranjeira, tão comuns na sua infância.

   Caminhava entre gradis fechados. Haviam proliferado as habitações em gaiola. As ruas estavam estranguladas pela ocupação irregular das calçadas. Em pouco tempo, restaria apenas o leito elevado dos trilhos para transitar. Por sorte, não passavam trens àquela hora para pôr em risco a jornada de Agenor. Eram estreitos os períodos diários de acesso à cidadela e duas as opções de turno. O tribunal das corporações havia preferido ordenar assim o tráfego entre o centro e as áreas periféricas para facilitar o controle das licenças de entrada.

   A segunda bala mortífera de sua pistola Agenor endereçou para a jovem que saiu de um beco, num repente, e quis roubar-lhe a mochila com seus parcos pertences e a garrafa d’água. A terceira, a quarta e a quinta para o rapaz musculoso que veio em socorro da outra, quando a viu cair. Ao dar o tiro na moça, pensou ter ouvido novamente o zumbido da abelha. Nos disparos seguintes, estava agitado demais para ouvir qualquer coisa além dos gritos roucos da vítima. Achou que era assim mesmo, não estava acostumado com pistolas eletrônicas. Mas bem podia estar enviando coordenadas.

   Ao ver a primeira árvore fora da cidadela, esquálida e ressequida, procurou afastar-se das luzes e da via elevada. Aventurou-se, sem rumo certo, pelas vielas estreitas e sinuosas. Imaginou estar se aproximando da área dos Fúrias quando viu o guardião de traços asiáticos vindo em sua direção, com sua longa espada de samurai. Teve de gastar a sexta e a sétima balas para derrubá-lo. Voltou correndo para os arredores da linha, no rumo da árvore seca que lhe servia de referência. O melhor era seguir os trilhos. Foi o que Lucinda havia dito: o melhor é seguir os trilhos.

   Gastou as últimas três balas para manter à distância um perseguidor, parceiro do guardião nipônico. Mas esse ele não conseguiu matar. Sem munição, a arma ficou emitindo um zumbido preocupante. Enquanto tentava silenciá-la, Agenor pensou que o teriam tratado com mais respeito no Paz e Harmonia se soubessem que seria capaz de matar quatro inimigos com apenas dez balaços. Mas isso nem mesmo ele imaginava fazer no tempo em que vivia lá.

   Atirou a pistola inútil e estridente para longe. Correndo e tropeçando junto aos trilhos de cerâmica supercondutora, invadiu um descampado seco e poeirento, por onde andou mais de hora entre barrancas pedregosas, à luz pálida da lua. Alcançou, enfim, um platô amplo e fedorento, fracamente iluminado, com dezenas de cercados retangulares. Vinha de lá um rumor soturno de animais contidos. Aproximou-se, com cuidado, lamentando a ausência da pistola protetora.

   Das laterais da via, faiscaram luzinhas vermelhas. Agenor ouviu outra vez o zumbido das abelhas biônicas. Sentiu uma vibração estranha no peito e percebeu que, no lado esquerdo do seu jaquetão impermeável, havia agora uma área derretida e chamuscada.

   À boca da esplanada, deu-se conta, apavorado, que aqueles pequenos currais em sequência estavam cheios de velhos como ele. Então seu corpo começou a formigar.

   - Baia quarenta e sete – alguém gritou.


   No fundo do vale, austera e persistente, fumegava a chaminé do matadouro.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A lei é a lei


   Ainda que tenham sido leves os nossos crimes e curtas as nossas penas, estamos trancados, alheios ao sol e à chuva, sujeitos a uma dura rotina de readequação. Somos todos criminosos, é preciso admitir. Somos infratores, agora apenados. Temos direitos suspensos. Homens treinados para reorientar trajetórias aplicam-nos sessões diárias de reeducação moral e normativa. Ao menos, a noite nós podemos passar em casa. É prisão aberta. Basta que voltemos de manhãzinha.

   É curioso o fato de muitos de nós alegarmos inocência. Sentimo-nos flagrados em delitos comuns à maioria ou alvo da injustiça de agentes públicos empoderados demais. É normal que perguntemos ao mestre da hora: quem jamais? Ou que nos consideremos azarados, pinçados como trouxas exemplares num cardume de bandidos espertinhos.

   Apenas Fernanda assumiu seus crimes, quando nos apresentamos. Errei, só pensei em mim, estou aqui para reaprender, ela disse.

   Mesmo eu – pacífico cidadão - aleguei injustiças várias, obscuridades da norma e exageros autoritários. Dionélio admitiu ter ultrapassado limites, mas foi só um pouquinho. Karen alegou não conhecer o código. Júlio investiu contra os homens da lei, todos uns safados a se beneficiarem de impostos e taxas. Promete vingança. Ana Júlia está pagando pelo crime de terceiros e não teve meios para contestar. Renato também cumpre pena no lugar de outro, mas foi um gesto voluntário. Lédio culpa o temporal, que o deixou fora de si. Cristina assume ser muito perigosa, mas alega ter sido alvo de perseguição. Rodrigo se passa quando bebe. Agenor estava no local errado na hora errada. Eronildes, fosse rica, não estaria ali. José, fosse pobre, teria escapado. Arlindo quis fugir de um assalto e se deu mal. Paulinho usa a própria juventude como desculpa: vão dizer que não faziam assim quando eram guris?

   Assim nos apresentamos aos nossos algozes: irritados, arredios, magoados. Mais vítimas que bandoleiros.

   Diante de tantas esquivas, os educadores -  aprendizes  de  durões -, relativizam os mal feitos. Querem aproximar-se da sabida normalidade que representamos, para não parecerem caretas demais ou malandros de menos. Passam a mão sobre nossas cabeças, ensinam burlas, recomendam atalhos ao regulamento. Ninguém é santo, todos sabemos, a gente precisa se policiar, dizem. Comentam até sobre falcatruas em alguns centros de reabilitação, fraudes com outros educandos e afrouxamento das penas por conta dos carcereiros. Talvez querendo exaltar o rigor da própria instituição ou abrindo as portas para alguma negociata. O sistema tem falhas. Com certeza, tem falhas. Ah! O maldito sistema.

   Outras vezes querem aparentar a pureza de alma que suas cicatrizes teimam em manchar. Se contradizem, fazendo dos banhos de sangue diários uma nauseante estratégia de conscientização pelo asco, pelo medo e pela dor. Ao menos, evitam torturar-nos com imagens do velório das vítimas.

   Estamos longe da perfeição, eles admitem, fazemos um trabalho de formiguinha. Sabemos que lá fora é uma selva e muita gente, neste exato  momento, está cometendo os mesmos crimes que os trouxeram aqui. São mais de sessenta mil mortes por ano. Mas vocês deram azar, fodam-se. Infringiram alguma norma. E a lei é a lei, porra. Por alguma razão ela existe.

   Reflito que seria útil saber um pouco mais sobre as tais razões, mas sou novamente atropelado pela carnificina midiática, corpos estendidos, braços amputados, fraturas angulosas, poças fumegantes, sangue fresco.

   Não dá para inventar a roda, as coisas precisam fluir, eles explicam. O mundo não pode parar porque um babaca desistiu de dobrar a esquina.

   Sem me animar a contestá-los - o mundo bem poderia dar uma pausa para ajeitar as coisas! – penso que eu deveria ser grato. Entre grosserias diversas, eles me ensinaram truques e macetes. Lembram aqueles professores inseguros que avisavam em aula: olha, presta atenção, isso vai cair na prova.

   Meu melhor mestre assumiu já ter sentado nos banquinhos que agora suportam, dia após dia, nossos corpos cansados. Teve lá sua vida de crimes. Apesar de incorporado à função de protetor das normas, do alto de sua sapiência, avisa para não sermos otários. Todo aquele regramento é relativo. Se acharmos que estamos em risco, um deslize aqui ou ali faz parte do jogo. É o diabo do bom senso.

   Em algumas semanas, eu volto para as ruas. Estou inquieto. Não me sinto plenamente reabilitado para o convívio em sociedade, nem encontrei à venda nenhum bonsensômetro. Cá entre nós, não vejo a sociedade muito apta a conviver consigo mesma.

   Os mestres gostam de chamar de reciclagem a nossa cruzada por este paraíso. Embora não saia dela mancando de uma perna, como o Reni, ou com a testa afundada, como o reincidente Marcelo, enfrentarei problemas. Espero saber dizer as palavras certas. Farei sinais e pedirei desculpas. Tratarei de não dar mole diante das autoridades e manterei minha arma bem cadastrada, regulada e em dia com os impostos. Cuidarei das câmeras de vigilância. Evitarei as manobras que costumam dar errado. Estarei atento à movimentação dos homens, de olho nas advertências e nos riscos do ofício. Prometo atenção aos avisos de encrenca, aos gestos, aos silvos. A lei é a lei, porra. Vou lembrar sempre desse argumento.

   Logo estarei apto a recuperar minha carteira de habilitação. Não quero voltar a cumprir pena no CFC Pestana.